Anibal Beça

Soneto

Hão de chorar por ela os cinamomos,
Murchando as flores ao tombar do dia,
Dos laranjais hão de cair os pomos,
Lembrando-se daquela que os colhia.

As estrelas dirão: — "Ai , nada somos
Pois ela se morreu silente e fria"...
Ë pondo os olhos nela como pomos,
Hão de chorar a irmã que lhes sorria.

A lua, que lhe foi mãe carinhosa,
Que a viu nascer e amar, há de envolvê-la
Entre lírios e pétalas de rosa.

Os meus sonhos de amor serão defuntos...
E os arcanjos dirão no azul ao vê-la,
Pensando em mim: — "Por que não vieram juntos?"


Gomos do Silêncio

De tanto ouvir nada
tudo fica muito.
Fruta oferecida
ao meu paladar
se me entreabrindo
polpa de apetite.
Vem se mastigando
num castigo surdo
sussurro macio
de cioso som.

O fruto palavra
de doce mascavo
repuxa viscoso
no tacho da boca
mel caramelado
nas paredes brancas
escarpas afiadas
os dentes sedentos
língua lambe-lambe
lambuzando a cara.

De comer no entanto
tudo fica pouco
já que somos muitos
de uma mesma boca
ciciando o que fica
na sobra dos dentes
os fiapos sitiados
na ponta da língua
prontos para o gesto
de broca palito.

Gagueja a sintaxe
britadeira grita
em solo de rocha.
Há que repetir
poundianamente
o tripé poema
os gregos de Tróia
cavalo de phanos
na sela do logos
dança a melopéia.

Aprendiz silente
é quando descasco
a casca da fruta
e sorvo seus gomos
o musgo da polpa
no vão do barulho:
Babel ó Babel!
Dá-me a confusão
as línguas de fogo
queimando meus sonhos.

De tanto ouvir muito
tudo fica surdo
e se instala o mudo
silêncio do mundo.
A canção sozinha
não da solidão
mas a solitária
sempre perseguida
a fruta calada
que abrirá os gomos.

Esta fruta muda
de cor e de rumo
camaleão ágil
no repto do rapto
valquírias aladas
pousam na paisagem
de ontem e de sempre,
e as muitas sereias
no rastro de Ulisses
inventando mares.

Todas já passaram
além Bojador
todas já forjaram
um céu meridiano
no aço do seu fio
o corte cortante
o corte cortador.
No sumo da palavra
a gota se enxuga
e lava a palavra.

Nada há de novo
no rio corrente
onde banho a fruta.
Esse recorrente
ato da procura
é que me alivia
do novo especioso
ato da invenção.
No incêndio afogado
sei-me palimpsesto.

Musas dos irmãos
socorrei-me musas
e deitai comigo.
Nascerão do incesto
clones de mil faces
anjos de asas tortas
um decamerão
frouxo e esparramado
de um miglior cantor
para um minor fabro.


Primícias

Começo pelo começo
bem calmo nesse arremesso,
e a boa velocidade
vem nos dedos sem alarde

A pressa que traz desastres
está fora desse catre
e a cama dos seus desejos
é dela e dos meus harpejos.

Música de descoberta
é a que vem tão aberta
que sabe a chave da cela
inventando os tons da tela.

Sabe soltar essa fera
presa na teia da espera
breve sopro no pescoço
toque macio no dorso.

As mãos em concha nos seios
colinas do meu passeio
sou cuidadoso alpinista
sei do mamilo a conquista.

A língua meu artefato
se atiça com muito tato
vai do ouvido ao seu regaço
e lúbrica banha o espaço.

O tempo se perde inteiro
num relógio sem ponteiros.
Já o disse certa vez
nas curvas da sensatez.

Os sons que saltam do corpo
úmidos de tanto rogo
se abafam num bafo quente
vapor de tesão fremente.

Há mistérios nas palavras
que nem a memória grava
são do instante a liberdade
que o vulgar vem sem as grades.

É quando desço ao regato
revelando no meu trato
o retrato e seu reflexo
toda a magia do sexo.

E o beijo mais escolhido
pousa nos pêlos tecidos
crespa canção guardiã
do milagre da manhã.

E ligeira se aligeira
a serpente mais rasteira
de língua malemolente
amaciando o presente.


Primícias

Começo pelo começo
bem calmo nesse arremesso,
e a boa velocidade
vem nos dedos sem alarde

A pressa que traz desastres
está fora desse catre
e a cama dos seus desejos
é dela e dos meus harpejos.

Música de descoberta
é a que vem tão aberta
que sabe a chave da cela
inventando os tons da tela.

Sabe soltar essa fera
presa na teia da espera
breve sopro no pescoço
toque macio no dorso.

As mãos em concha nos seios
colinas do meu passeio
sou cuidadoso alpinista
sei do mamilo a conquista.

A língua meu artefato
se atiça com muito tato
vai do ouvido ao seu regaço
e lúbrica banha o espaço.

O tempo se perde inteiro
num relógio sem ponteiros.
Já o disse certa vez
nas curvas da sensatez.

Os sons que saltam do corpo
úmidos de tanto rogo
se abafam num bafo quente
vapor de tesão fremente.

Há mistérios nas palavras
que nem a memória grava
são do instante a liberdade
que o vulgar vem sem as grades.

É quando desço ao regato
revelando no meu trato
o retrato e seu reflexo
toda a magia do sexo.

E o beijo mais escolhido
pousa nos pêlos tecidos
crespa canção guardiã
do milagre da manhã.

E ligeira se aligeira
a serpente mais rasteira
de língua malemolente
amaciando o presente.


Folhas da selva

Girassol na tarde
se curva em reverência:
o sol se vai.

Abre o camponês
sulcos de arado na terra.
Em seu rosto rugas.

Seis hora da tarde:
sons de cigarras prolongam
os sinos do templo.
 
Cochicho de folhas.
Varre o vento na calçada
secas lembranças.

Bem que me agasalho.
Galhos sem folhas lá fora
parecem ter frio.

Noitinha na várzea:
com a lua na garupa
búfalos regressam.

Ao sol na vereda
o ventre inchado em rodilha
jibóia a jibóia

No alto a lua fria;
no prato a sobra da janta:
beiju desprezado.

Canto e contracanto:
o pica-pau reclamando
do som do machado.

Na soleira do sítio
a negra graúna canta
ao silêncio do sol.

Broca no bambu
deixa furos vazados:
O vento faz música.

Céu de primavera.
Nas açucenas floridas
dura mais o orvalho.

Jogando a tarrafa
caboclo desfaz a lua.
Pesca estrelas de escamas.

Abro o armário e vejo
nos sapatos meus caminhos.
Qual virá comigo?

Vento de verão
vem com bafo de mormaço —
garoa ameniza.

Coruja na cumeeira
arrepia no seu canto —
a viúva reza.

Folha no rio
vai para o mar sem volta —
chorão se renova.

A cigarra canta
o anúncio de sua morte —
formigas na contra-dança.

Sobe a piracema —
ano que vem outros peixes
nadarão de novo.

Apenas um gesto
e o homem é capaz de vida —
reparto o caqui.



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